Um dia de glória

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O dia estava com a temperatura amena. Soprava aquele típico ventinho do nordeste. Havia nuvens, as mesmas que teimavam em nos acompanhar durante boa parte daquela campanha.

Na fila, imensa e interminável, todos se cumprimentavam. Estranhos e desconhecidos tratavam-se como irmãos adotados, fazendo parte da mesma família. A angustia e ansiedade aumentavam. Os olhares eram rútilos, alguns distantes, outros compenetrados na imagem da Ressacada tão longe e tão próxima. Faltava pouco naquela inacabada espera.

As vozes nos rádios formavam uma babel alucinada, cujas narrações expunham notícias sem que os ouvidos as entendessem. Frases soltas, declarações emocionadas, depoimentos taxativos, nada mudava a necessidade de entender o momento. A poucos instantes daquele épico encontro, a verdade cada vez mais se acentuava.

A chegada ao estádio foi um ritual monocórdico. Não havia tempo para os abraços e reencontros, pois a necessidade imperiosa de estar nas arquibancadas já não permitia as preliminares. Queríamos ir direto ao assunto, o jogo.

Quando a partida começou, toda a preparação para aquele momento pareceu parar no tempo. A recepção ao time, as manifestações de apoio, o canto das organizadas, o hino nacional, o senta-levantada para ajustar-se ao lugar foi interrompido pelo apito do juiz iniciando o desafio. Desafio de superar a agonia. Por milionésimos de segundo arrematados na imensidão de um Big Bang, o silêncio se fez. Foi rápido, mas foi o suficiente para engolir a saliva travada e sentir um gosto de esperança. A hora havia chegado.

O desenrolar do jogo estabeleceu uma catarse assombrosa. Tudo o que passou, tudo o que havíamos vivido até ali, até aquele instante se perdeu nas vagas do vento e foi ao encontro das nuvens. Fez-se uma limpeza purificadora. Dali para frente, lançávamos o passado para o mundo das memórias e o futuro nos aguardava.

A dramaticidade de um jogo decisivo é impiedosa para aqueles cujo músculo pulsante dentro do peito sofre. Unhas? Dedos? Cabelos despenteados? Nada disso servia para apagar a sensação de vazio que se avizinhava. O gol não saia. O gol salvador. O desaguador das mágoas teimava e não brotar e nos causava o desespero. Lances de um lado a outro nos traziam o suspiro. A empolgação por um lance perdido se contrabalançava pela preocupação de uma jogada perigosa do adversário. E se não fosse naquele dia?

E aí, aconteceu!

Numa jogada rápida pelo meio um sujeito que nasceu talhado para as decisões leoninas fez acontecer. A jogada de Evando em frente à zaga, chutando despretensiosamente para o gol, com uma singela colaboração do goleiro, expôs milhares de avaianos em êxtase. O grito de gol não saiu na hora. Faltou acreditar. Como em câmera lenta, acabávamos de presenciar um feito histórico, quadro a quadro. Jogadores se abraçando, banco de reservas em harmonia com a torcida, arquibancadas lançadas para o ar. Era o gol do acesso. Era o passo de uma vida.

Por um curto espaço de tempo olhei em volta e vi lábios trêmulos, risos arregaçados, choros copiosos, olhos aguados, pulos, saltos, gritos e uma alucinada explosão. Naquele instante parei e refleti. Lembrei, com orgulho dos dias de penúria e sofrimento, dos dias do Adolfo Konder, dos jogos na chuva e no frio, das filas, das derrotas humilhantes e das conquistas apoteóticas. Do sofrimento em ser avaiano. Abracei-me com os meus e chorei. A alegria era imensa. Um sonho de criança se materializava. Já não éramos mais os “nadas”, os “coisa alguma”. Éramos o Avaí na série A. Ali, naquele momento, fizemos história, para nunca mais o nosso coração esquecer.

1 comentários:

  1. Fábio Azurra disse...:

    Domingo passado assisti o filme do Avaí antes de ir ao jogo.
    Que espetáculo!
    Estádio cheio, torcida feliz, jogadores comprometidos, enfim, a máquina com a engrenagem perfeita para o momento.

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